São João: cultura popular movimenta economia e gera oportunidades para pequenos empreendedores no MA

  • 07/06/2026
(Foto: Reprodução)
Cultura popular movimenta economia e gera oportunidades para pequenos empreendedores No São João do Maranhão, uma das maiores manifestações culturais do Brasil, o bumba meu boi encanta pela lenda de Catirina e Pai Francisco, pelas toadas que narram histórias e crenças e, também, pela riqueza das indumentárias, adereços e instrumentos musicais que dão cor e ritmo à festa. As festas juninas contam, ainda, com toda a exuberância e o bailado do tambor de crioula, do cacuriá, da dança portuguesa, entre muitos outros. São contas, pérolas, paetês, penas, tecidos de chita e outros elementos que compõem o figurino de índias e índios, vaqueiros, caboclos, coreiras, dançarinos e demais personagens dessa manifestação cultural, além de tambores, matracas, pandeirões e outros instrumentos musicais. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do MA em tempo real e de graça Mas, por trás de todo esse brilho, cor e ritmo, há mãos ágeis de personagens criativos e dedicados que, muitas vezes, permanecem no anonimato, mas que sem eles "o boi não dança". São artesãos, bordadores, costureiros, ferreiros e outros profissionais que dedicam tempo e criatividade para tornar a festança junina tão encantadora, atraindo pessoas de várias partes do Brasil e do mundo. Há uma forte cadeia produtiva ligada aos grupos culturais como o bumba meu boi, o tambor de crioula, o cacuriá e a dança portuguesa, entre outros. O São João do Maranhão aquece o turismo, a gastronomia e a economia criativa. Durante a temporada junina, a cultura popular maranhense se transforma em oportunidade de geração de renda, fortalecendo a economia local. Empreendedores investem em peças inspiradas na cultura popular maranhense para atrair clientes, aumentar as vendas e dar mais visibilidade aos pequenos negócios. Liliane Cutrim/g1 MA Para o economista Lucas Mendes, a cultura é um setor muito produtivo, que gera emprego, movimenta o comércio, atrai turistas e reforça a identidade local. Ele destaca que muitas famílias vivem dessas atividades durante todo o ano, especialmente aquelas ligadas aos grupos culturais, como o bumba meu boi. “Há toda uma cadeia produtiva em torno da cultura. A confecção de indumentárias para os grupos de bumba meu boi, o bordado e a fabricação de instrumentos, como pandeirões, tambor-onça e matracas, movimentam artesãos, costureiras e comerciantes. Uma costureira do Boi de Maracanã, por exemplo, pode comprar tecido, linha e miçangas no comércio local". Quando o grupo vai se apresentar em um arraial, precisa alugar transporte para levar os brincantes", explica. O especialista aponta, ainda, que a apresentação atrai turistas e maranhenses, que, por sua vez, movimentam serviços de alimentação, transporte e hospedagem, um consumo que vai além dos arraiais. "O turista atraído pela cultura não vai apenas ao arraial. Durante o dia, frequenta restaurantes, realiza passeios, conhece a cidade e consome. Fica evidente, portanto, que a cultura movimenta a economia de forma ampla e encadeada". Com uma programação extensa, que vai de maio a julho, o São João do Maranhão é considerado o maior evento do calendário cultural maranhense, contando com inúmeras apresentações simultâneas de grupos culturais em várias partes do estado, atraindo visitantes e aquecendo a economia. "Fala-se muito sobre São Luís, que é onde se tem mais visibilidade, mas há São João em todo o estado, como na Baixada Maranhense, por exemplo. Portanto, os grupos de São Luís e de outros municípios produzem o ano inteiro, movimentando artesãos, costureiras, bordadeiras, músicos etc. Vale destacar que, mesmo quando o poder público investe em atrações nacionais, o que de fato atrai o público e aquece a economia são as manifestações locais", destaca o economista Lucas Mendes. O especialista pontua, ainda, que o público quer ver a diversidade dos grupos de bumba meu boi, do tambor de crioula, do cacuriá e de tantas outras expressões culturais. "Os turistas querem conhecer a cultura maranhense, e os maranhenses desejam reforçar sua identidade cultural. São esses e outros elementos, não citados aqui, que fazem do São João um evento único e muito relevante do ponto de vista econômico." A movimentação econômica se comprova em números: segundo levantamento do Instituto Maranhense de Estudos Socioeconômicos e Cartográficos (Imesc), em 2025, a movimentação registrada no Maranhão durante o período do São João foi de R$ 415 milhões, e a estimativa é que esse número cresça 30% em 2026. Ainda de acordo com o Imesc, diversos setores da economia são beneficiados pelas festas juninas no Maranhão, como alimentação, bebidas, vestuário e artesanato. Um dos segmentos que mais lucram nessa época é o de hotelaria, devido ao aumento no fluxo de turistas. Além disso, o setor de transportes, especialmente por aplicativo e táxi, também é beneficiado durante a festividade. Quanto aos pequenos empreendedores, ambulantes e trabalhadores informais que atuam nos arraiais oficiais, de acordo com o Imesc, cerca de 8,5 mil pessoas estiveram ocupadas nos estabelecimentos presentes nos arraiais (alta de 15,4% em relação a 2024), e espera-se que esse número aumente neste ano. E, neste mês de junho, quando o Maranhão se transforma em palco para o São João, o g1 mostra histórias de personagens que ajudam a manter viva a tradição dos grupos de bumba meu boi por meio do artesanato, do bordado e da costura. Além de contribuírem para a beleza das apresentações, esses profissionais adquirem renda e fazem a economia girar. LEIA TAMBÉM: 95% dos turistas que visitaram o Maranhão no São João pretendem retornar ao estado, aponta pesquisa Brincante invisível: conheça o miolo, responsável por dar ‘vida’ ao boi nos grupos de bumba meu boi do MA São João do Maranhão 2026 ganha plataforma digital com programação completa dos arraiais Grupos tradicionais movimentam economia e cultura no São João do Maranhão Boi de Maracanã é atração confirmada nos principais arraiais do Maranhão durante a festança junina. Divulgação/Vinicius Silva O bumba meu boi é reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco desde 2019 e reúne cerca de 450 grupos no Maranhão. Entre eles está o Boi de Maracanã, com mais de 100 anos de existência, que é atração confirmada nos principais arraiais do Maranhão durante a festança junina. O grupo é um dos mais tradicionais do sotaque de matraca, instrumento que se destaca pelo som forte e característico. Além do sotaque, o boi chama a atenção pela rica indumentária, que tem como marca registrada o brilho, a riqueza dos bordados e as roupas que misturam veludo, cetim, fitas, miçangas, canutilhos e penas, elementos que ajudam a dar cor e movimento às apresentações do grupo. Tudo isso traz imponência aos personagens que compõem o batalhão. Para manter toda essa exuberância, uma equipe de costureiros e bordadores trabalha na confecção das roupas dos brincantes. Muitos atuam como autônomos ou voluntários. Lavínia Assunção, diretora do Boi de Maracanã e também bordadeira, afirma que sem esses profissionais não seria possível levar a beleza do grupo para os arraiais. “Para nós do Maracanã, esse trabalho é superimportante, pois, sem esses profissionais, que exercem suas atividades com amor e dedicação, não conseguimos fazer o Boi de Maracanã acontecer. Ou seja, sem essa família de Maracanã, que construímos ano após ano, não conseguiríamos levar esta beleza para os arraiais no São João e fora dele também”, destaca. Boi de Maracanã é atração confirmada nos principais arraiais do Maranhão durante a festança junina. Divulgação/Israel Pontes Lavínia trabalha como bordadeira há cerca de 10 anos, confeccionando chapéus, testeiras, peitorais, cintos e roupas de índias. Ela conta que aprendeu a bordar após o reconhecimento do Maracanã como ponto de cultura pelo Ministério da Cultura, participando de oficinas de bordado para indumentária. Segundo a bordadeira, a atividade permite participar ativamente da construção do Boi, serve como terapia e se tornou fonte de renda. “Gosto de bordar porque é uma forma de participar efetivamente da construção do nosso Boi, que é a minha paixão. Além de funcionar como terapia, é um orgulho fazer o que faço dentro de uma manifestação cultural tão rica do nosso Maranhão. Além de ser de suma importância, hoje se tornou a minha segunda profissão, uma nova fonte de renda por meio desse trabalho que me faz tão bem, que é ser bordadeira”. Ela destaca, ainda, que o São João não é apenas encantamento, mas também oportunidade de renda para pequenos empreendedores, que aumentam as vendas de materiais de decoração, bordados, alimentos e serviços nos arraiais. O Boi de Maracanã, segundo Lavínia, contribui significativamente para o capital de giro local, movimentando diversas atividades durante a prévia e o período junino. “O Maracanã contribui de forma muito significativa em relação ao capital de giro, pois nossas despesas são grandes. Também colaboramos nesse período com pessoas que ganham dinheiro em diversos serviços informais, no setor de compra e venda, indivíduos que reservam em seu calendário um período fixo para obter uma renda extra durante nossos eventos, desde a prévia até a morte do Boi.” Outro grupo que depende de empreendedores é o Boi de Axixá, do sotaque de orquestra, que há 67 anos se apresenta no São João maranhense. A presidente Leila Naiva afirma que a cultura gera renda e movimenta a economia, pois exige materiais e mão de obra especializada. Segundo ela, desde a compra de ferro e tecidos até a montagem das peças, há uma cadeia de serviços que beneficia ferreiros, costureiros e artesãos. “Só aqui, no Boi de Axixá, estou com profissionais de grande porte, que carregam muitos grupos nas mãos e realizam um trabalho de excelência. Então, a cultura gera renda e movimenta a economia. Antes do São João, já ocorre a compra do ferro; alguém já recebe pelas agremiações, por essas manifestações. Do ferro vem a mão de obra do Seu Reis, ferreiro do boi. Depois, passa para os tecidos e para os materiais que compramos nas lojas para montar tudo: cola, cola quente e vários outros itens. E isso tudo é apenas para montar a cabeça das indumentárias dos índios”, explica. Boi de Axixá, do sotaque de orquestra, há 67 anos se apresenta no São João maranhense. Divulgação/Boi de Axixá O Boi de Santa Fé, do sotaque da Baixada e fundado há 38 anos, também envolve profissionais ao longo do ano. O diretor e coordenador geral do grupo, Adriano Andrade, explica que contratar costureiros, bordadores e artesãos mantém viva a tradição, valoriza os profissionais e movimenta a economia local e nacional, já que muitos materiais são comprados fora da região. “Todos os anos, o boi contrata esses serviços para preparar a temporada junina. Esse trabalho é fundamental para manter viva a tradição, garantir a beleza das apresentações e valorizar os profissionais da cultura popular. Com isso, o Boi de Santa Fé contribui diretamente para a economia local e nacional, já que adquirimos muitos materiais fora, movimentando o comércio com a compra de canutilhos, miçangas, tecidos, veludos, ferragens e outros insumos, além de gerar renda para os próprios brincantes e profissionais da comunidade”, destaca. O artesão Clelbert Costa trabalha há 14 anos no Boi de Santa Fé. Divulgação/Arquivo pessoal O artesão Clelbert Costa trabalha há 14 anos no Boi de Santa Fé, confeccionando bordados, peças de couro e indumentárias de índias, índios e bailantes, além de chapéus. Ele aprendeu o ofício com a mãe e aprimorou as técnicas nas oficinas do grupo. Clelbert considera seu trabalho essencial para a cultura do Maranhão, proporcionando brilho e beleza às apresentações e sendo sua principal fonte de renda. “Trabalho exclusivamente para o Boi de Santa Fé, onde aprendi muito e ao qual sou muito grato. Com esse ofício, já conquistei bastante; hoje é minha principal fonte de renda. É de extrema importância saber que meu trabalho é uma das partes essenciais da nossa cultura, pois dá brilho e beleza, impressionando tanto os conterrâneos quanto os turistas que nos visitam. Fico muito feliz e satisfeito com o reconhecimento”, destaca Clelbert Costa. No interior do Maranhão, não é diferente: centenas de grupos de bumba meu boi se organizam para se apresentar nas festas juninas e contam com o indispensável trabalho de pequenos empreendedores. O Boi Novilho dos Lençóis, fundado há 15 anos em Humberto de Campos, conta com uma equipe de dez pessoas entre costureiras, bordadores e artesãos para confeccionar toda a indumentária. “Esse trabalho é de grande importância para o nosso grupo, pois fortalece a organização, valoriza os integrantes e contribui diretamente para o crescimento e o sucesso do Boi Novilho dos Lençóis. Toda dedicação e compromisso fazem a diferença na construção da nossa história”, destaca a presidente do grupo, Socorro Almeida. Ao contratar os serviços dos pequenos empreendedores, o grupo ajuda a movimentar a economia local, como explica Socorro. “A contribuição do Boi para a economia local é muito significativa, pois gera renda e oportunidades para diversos profissionais, movimentando o comércio por meio da compra de materiais para indumentárias, contratação de costureiras, artesãos, músicos, transporte, alimentação e outros serviços prestados por microempreendedores da comunidade.” O Boi Novilho dos Lençóis foi fundado há 15 anos em Humberto de Campos, no Maranhão. Divulgação/Boi Novilho dos Lençóis Um dos envolvidos na preparação do Boi Novilho dos Lençóis é Carlos Augusto, que se intitula multiculturalista por trabalhar diretamente com diversas frentes culturais. Há 15 anos, Carlos Augusto ajudou a fundar o grupo, apresentando o projeto com a quantidade de brincantes, orquestra, percussão, cantores e roupas para que o Boi Novilho dos Lençóis pudesse fazer parte da cultura maranhense. Desde então, ele acompanha todas as etapas, do planejamento aos ensaios, incluindo a confecção de roupas do campeador, das índias e dos cantadores. Em alguns anos, chegou a atender três grupos simultaneamente. “Todo esse trabalho do projeto foi feito por mim, até chegar ao primeiro ensaio, às primeiras apresentações e até o boi passar a fazer parte do calendário cultural maranhense. No boi, meu trabalho é executar praticamente tudo. Algumas coisas eu terceirizo, mas, no final, tudo passa pela minha mão. Tudo relacionado à brincadeira do boi passa por mim: a barra da burrinha, a roupa do campeador, a roupa da índia, a roupa da guerreira, a roupa dos cantores. Enfim, tudo passa pelas minhas mãos”, destaca. Morador de Rosário, Carlos aprendeu o ofício com o avô, amo do Boi de São Simão. Ele ressalta que a atividade virou paixão e fonte de renda, mas alerta para o risco de desaparecimento da tradição, já que poucas pessoas da nova geração demonstram interesse em seguir o trabalho. “Não é só pela parte financeira, apesar de eu ser pago para fazer esses trabalhos. É porque a gente gosta, realmente ama. Sou muito conhecido aqui na minha cidade e na região, e sempre incentivo a cultura, seja no Carnaval, no São João ou em outros festejos. Estou sempre muito envolvido com a questão cultural do meu município e da região. Mas aqui em Rosário, que é a minha cidade, há pouquíssimas pessoas que trabalham com isso. Já conversamos que, quando a nossa geração morrer, isso pode se acabar, porque a nova geração não quer fazer esse tipo de trabalho.” Confecção de tambores, matracas e pandeirões gera renda e mantém tradição junina Confecção de tambores, matracas e pandeirões gera renda e mantém tradição junina Reprodução/TV Mirante Um dos elementos que mais impactam o São João são as toadas, que trazem letras que enaltecem a cultura, a religião, a natureza e uma infinidade de temas relacionados ao Maranhão. Mas esse canto folclórico não vem sozinho: é acompanhado pelo som retumbante dos pandeirões, dos tambores-onça, das matracas e de outros instrumentos musicais que ecoam pelos arraiais do estado. Para que a festança aconteça, artesãos se dedicam a produzir esses instrumentos com a afinação necessária para dar som ao São João, como é o caso de uma família de marceneiros que há mais de 40 anos produz matracas em São Luís. Um ofício ancestral que gera renda e tem sido passado de geração para geração. “Tudo começou com meu avô, depois passou para o meu pai e, nesta geração, estamos eu e meu irmão. Agora, estamos repassando para o Roque, que é meu sobrinho”, explica Antônio José Nunes, mestre artesão. Da escolha da madeira ao formato da matraca, a família produz peça a peça, ajudando a manter viva a tradição junina. “Ao fazer uma matraca como esta, sabemos que estamos dando continuidade à cultura maranhense. É uma paixão que temos, pois a cultura maranhense é linda, especialmente o bumba meu boi, que não pode desaparecer”, destaca Roque Nunes. Em 2025, a família produziu mais de dois mil pares de matraca, que foram para integrantes de grupos tradicionais e para amantes da cultura popular maranhense. E sem o tambor-onça, o som do São João não seria o mesmo. No ateliê do mestre Zé Pretinho, músico e artesão, esse instrumento ganha forma e ritmo. É dele que sai o tom grave que embala as toadas, um som que lembra o roncado de uma onça, de onde vem o nome do tambor. “Aprendi a confecção do tambor-onça com os grandes mestres. É um trabalho que exige dedicação e amor”, destaca Zé Pretinho, que agora ensina o filho a arte de fazer os tambores. Outro instrumento que não pode faltar nos arraiais é o pandeirão, cujo trabalho exige conhecimento do mestre artesão, que escolhe cuidadosamente a madeira para fazer o arco que sustenta o couro do instrumento. Em uma oficina montada no quintal de casa, na zona rural de São Luís, João Sodré transforma a matéria-prima em instrumentos tradicionais da cultura popular, um ofício que aprendeu com os antigos. “Isso é um dom que Deus me deu e que não posso deixar de lado”, afirma o mestre artesão. É das mãos desses mestres que os grupos de bumba meu boi compram seus instrumentos e geram renda para os artesãos. Além disso, maranhenses e turistas também adquierem as peças nas feiras e arraiais, contribuindo com a economia local e preservação da cultura popular. Fora dos grupos culturais, pequenos empreendedores também lucram com a festança São João do Maranhão: cultura popular movimenta economia e gera oportunidades para pequenos empreendedores Divulgação/Arquivo pessoal/Liliane Cutrim/g1 Se dentro dos grupos de bumba meu boi o empreendedorismo ganha força com a alta demanda por indumentárias, adereços e instrumentos musicais, fora desses espaços a temática junina também gera oportunidades de negócio. Muitos empreendedores investem em peças inspiradas na cultura popular maranhense para atrair clientes e aumentar as vendas em feiras, arraiais, lojas físicas ou online, ampliando a visibilidade dos pequenos negócios. Entre os produtos mais procurados pelos clientes estão roupas customizadas, acessórios com fitas e bordados, brincos, tiaras, bolsas, itens de decoração e peças que fazem referência ao bumba meu boi, às matracas, aos bois bordados e às cores típicas da festança junina. Quem aproveita para lucrar nessa época do ano é a empreendedora Maria da Piedade, que costura há 14 anos. Na temporada junina, ela fabrica camisas customizadas, encomendadas pelas lojas de artesanato do Centro Histórico de São Luís. A costureira Maria da Piedade fabrica camisas customizadas que são encomendadas pelas lojas de artesanato do Centro Histórico de São Luís. Divulgação/Arquivo pessoal Maria da Piedade conta que confecciona as camisas com a irmã, enquanto os bordados são feitos por outras pessoas contratadas nesse período. Ela lembra que começou a bordar há anos, quando tinha uma loja de artesanato no Reviver, inicialmente fazendo apenas crochê e apliques para camisas. Mais tarde, fechou a loja e passou um tempo sem bordar, até que surgiu a ideia de produzir peças para oferecer nas lojas do Reviver. “No início, apenas duas lojas compravam, e eu conseguia fazer tudo sozinha. Mas, com o aumento das encomendas de outras lojas, precisei contratar ajuda, devido ao trabalho que o bordado exige, com paetês, miçangas e canutilhos. Hoje, faço as camisas com minha irmã, os bordados com outras pessoas e os acabamentos com meus filhos, porque são vários processos até a peça chegar às lojas. Gosto muito desse trabalho e, além de gerar renda para mim, também proporciono renda para outras pessoas”, explica a empreendedora. O São João também traz lucro para a artesã Sidneia Mendes, que há três anos confecciona chapéus de bumba meu boi bordados. As peças são produzidas com miçangas, paetês e canutilhos. O adereço é um dos mais importantes símbolos da festividade junina, pois faz parte da indumentária de vaqueiros e caboclos de pena e fita, sendo confeccionado artesanalmente com tecidos nobres e bordados detalhados. Além da estética, simboliza fé, pertencimento e identidade. Muitos maranhenses o usam como orgulho cultural, enquanto turistas chegam a pendurá-lo em casa como obra de arte. “Vendo para turistas e pessoas maranhenses e também envio para outros estados por meio de vendas online. Ano passado, por exemplo, enviei muitos chapéus para maranhenses que moram em outros estados e, às vezes, compram só para pendurar na parede como objeto decorativo”, destaca Sidneia. O ateliê da artesã Sidneia Mendes confecciona chapéus de bumba meu boi bordados entre outras peças com a temática do São João e do Maranhão. Liliane Cutrim/g1 MA A empreendedora conta que deixou a carreira de contadora para se dedicar ao artesanato, transformando sua paixão em negócio. Ao lado do marido, o artista plástico “Tocantins”, ela fundou em 2020 a Chamapraia, marca que produz peças feitas à mão, muitas delas inspiradas nas tradições do São João maranhense. Sidneia iniciou suas vendas na tradicional Feirinha São Luís, oferecendo chapéus, bolsas, bijuterias e camisas com estampas que remetem à cultura local. Depois, passou a produzir, durante o São João, peças com temática junina, como chapéus bordados, camisas customizadas e brincos de miçangas, um trabalho que se expandiu e gerou oportunidades de emprego para outras pessoas. “Deixar a contabilidade foi uma decisão difícil, mas necessária para me dedicar totalmente ao artesanato. Trabalhar com produtos do São João me conecta às nossas tradições e permite gerar renda para minha família e para outras pessoas envolvidas na produção. Hoje, a Chamapraia combina o artesanato tradicional com tendências contemporâneas e atende clientes de todo o Brasil por meio do e-commerce. O sucesso da marca mostra que investir na cultura popular pode ser tanto um ato de preservação quanto de empreendedorismo”, destaca. O ateliê da artesã Sidneia Mendes confecciona chapéus de bumba meu boi bordados entre outras peças com a temática do São João e do Maranhão. Liliane Cutrim/g1 MA Políticas públicas de incentivo ao empreendedorismo cultural Grande público é esperado durante as apresentações culturais do São João de Oportunidades. Divulgação/Sebrae Para que pequenos negócios se expandam, o incentivo por meio de políticas públicas é fundamental. “Cabe ao poder público garantir estrutura, acesso e visibilidade para a cultura local, aproveitando o efeito multiplicador que o investimento público pode gerar e ajudando a melhorar a renda das famílias maranhenses envolvidas direta ou indiretamente com a cultura”, destaca o economista Lucas Mendes. Nos últimos anos, durante o período junino, algumas prefeituras e o governo do estado têm se mobilizado para dar apoio e fortalecer os pequenos negócios. No caso das prefeituras, são organizadas feiras culturais e arraiais, como acontece em São Luís, em que artesãos, costureiras, bordadeiras e comerciantes podem vender produtos típicos da festança. No âmbito estadual, o programa Armazém do Empreendedor, coordenado pela Secretaria de Estado da Indústria e Comércio (Seinc), oferece oportunidades para pequenos empreendedores venderem seus produtos e serviços nos principais eventos do estado. Apesar de não ser um projeto voltado exclusivamente para o período junino, é nessa época do ano que as vendas aumentam mais, devido ao grande fluxo de turistas e maranhenses nos diversos arraiais e à duração do São João, que vai de maio, com as prévias, até julho. A microempreendedora Karliane Aquino está vendendo suquinho gourmet no arraial do Ipem por meio do programa Armazém do Empreendedor. Divulgação/Arquivo pessoal Uma das beneficiadas pelo programa é a microempreendedora Karliane Aquino, que vende suquinho gourmet. Ela teve a oportunidade de, neste ano, montar um estande no Arraial do Ipem, considerado o maior arraial do São João do Maranhão. “Sou proprietária da Migles Gourmet e estou participando do Arraial do Ipem através do Armazém do Empreendedor. Fui uma das selecionadas para este evento, que é grande e gera oportunidade e visibilidade para todos os empreendedores. O período de São João é uma das épocas mais fortes para microempreendedores, porque movimenta a economia local e aumenta o fluxo de pessoas. Além disso, temos retorno de faturamento imediato. Para mim, essa participação representa a chance de aumentar minhas vendas e de fazer novas pessoas conhecerem minha marca”, comemora Karliane. Outra iniciativa que contribui com os pequenos negócios é o programa Mais Renda, que apoia empreendedores e trabalhadores autônomos, promovendo inclusão produtiva de famílias em situação de vulnerabilidade social em grandes eventos do estado, como o São João. Os trabalhadores cadastrados no programa recebem um kit de negócio, composto por fardamento oficial, utensílios e equipamentos, como carrinhos adequados à venda de alimentos ou ao manuseio na área da beleza. Durante os eventos, centenas de microempreendedores comercializam seus produtos, aumentando a renda. Há ainda incentivos e editais culturais tanto de prefeituras quanto do governo do estado, por meio da Secretaria de Estado da Cultura, com apoio a grupos culturais, artesãos e manifestações tradicionais, fornecendo recursos para produção de indumentárias e equipamentos. Cursos e oficinas também são oferecidos ao longo do ano, com técnicas de bordado, artesanato e confecção de instrumentos, para fortalecer a mão de obra local e aumentar a competitividade dos pequenos negócios. Em âmbito nacional, há o Programa do Artesanato Brasileiro (PAB), uma política pública federal que visa valorizar o artesão e fortalecer o setor artesanal como atividade econômica e cultural no país. No Maranhão, esse projeto é desenvolvido com apoio do governo estadual, que, neste ano, leva artesãos, associações e grupos produtivos para o Barracão do Artesanato no Arraial do Ipem, no bairro Calhau, em São Luís. No arraial, visitantes e maranhenses podem encontrar biojoias feitas com sementes naturais, além de peças em fibra de buriti, cerâmica, madeira, bordados e renda de bilro, bem como acessórios, artigos decorativos, souvenirs e produtos inspirados nos elementos da cultura popular maranhense. Outra iniciativa que tem contribuído com o empreendedorismo cultural no Maranhão durante o período junino é o São João de Oportunidades, uma ação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) no estado, por meio da Unidade de Negócios Lençóis-Munim. O projeto é desenvolvido em parceria com prefeituras, instâncias de governança regional e atores locais, na região dos Lençóis Maranhão e Munim, com o objetivo de destacar a cultura como meio de desenvolvimento sustentável, promovendo inclusão produtiva, movimentando a economia e valorizando as expressões culturais do estado. O São João de Oportunidades, que chega à sua 5ª edição, promove, entre maio e julho, eventos como o Festival São João de Oportunidades, batizados de grupos de bumba meu boi, o Encontro de Gigantes e arraiais em municípios como Morros, Rosário, Axixá, Barreirinhas e Santa Rita. “Ao chegar à sua quinta edição, o São João de Oportunidades reafirma o potencial da cultura maranhense como força econômica, social e identitária. Em cada arraial, cada batizado de boi e cada experiência compartilhada, o projeto mostra que tradição e desenvolvimento podem caminhar juntos, mantendo viva a essência do Maranhão e criando novas oportunidades para quem faz da cultura seu modo de vida”, destaca David Amorim, gerente da Unidade de Negócios do Sebrae em Lençóis-Munim. Há ainda o Calendário Cultural Munim, Lençóis e Delta, que reúne as principais datas e facilita o planejamento de turistas, operadores e empreendedores. “O calendário funciona como uma ferramenta estratégica para integrar e divulgar os eventos culturais do território durante o período junino, facilitando o planejamento de turistas, operadores e empreendedores locais. A iniciativa também fortalece a circulação de visitantes entre os municípios e amplia a visibilidade das manifestações tradicionais que movimentam as comunidades”, afirma David Amorim. Artesanato regional é comercializado durante o projeto São João de Oportunidades. Divulgação/Sebrae Com toda essa movimentação cultural na região, pequenos empreendedores locais, como artesãos, barqueiros, guias, pousadas, restaurantes e prestadores de serviços, são beneficiados pelo aumento do fluxo de visitantes e pela economia gerada pelos eventos. Além disso, comunidades tradicionais, como quilombos, participam, recebendo capacitação e apoio para valorizar sua cultura e gerar renda. Durante a temporada, o Sebrae oferece atendimento presencial e remoto aos empreendedores nos municípios participantes, além de disponibilizar informações e capacitação por meio de seus canais digitais. Festejos juninos movimentaram mais de R$ 7 bilhões em 2025 no Brasil Boi da Maioba no Arraial do Ipem, em São Luís. Divulgação/Redes sociais Dados do governo federal apontam que, em 2025, as festas juninas movimentaram R$ 7,4 bilhões na economia brasileira e atraíram mais de 24 milhões de pessoas por todo o país. Com isso, a festança ficou em terceiro lugar como maior evento financeiro do Brasil, ficando atrás apenas do Natal e do Carnaval. Do Norte ao Sul do país, os festejos juninos unem tradições regionais, impulsionam o turismo e geram renda e emprego. O Nordeste é o berço das maiores celebrações juninas do Brasil, como o São João de Caruaru (PE) e de Campina Grande (PB), com grande impacto econômico e turístico. Na região Norte, festejos como o Parárraiá (PA) e o Festival de Parintins (AM) atraem milhares de pessoas. No Centro-Oeste, Brasília realiza o “Maior São João do Cerrado” e, em Trindade (GO), ocorre a Romaria do Divino Pai Eterno. No Sudeste, São Paulo promove diversos arraiás e quermesses tradicionais, enquanto Minas Gerais conta com o Minas Junina. No Sul, Camaquã (RS) adapta a tradição nordestina à cultura local. Segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM), mais de mil cidades brasileiras realizam festas juninas, uma tradição que fortalece a identidade cultural, promove turismo e cultura, além de gerar emprego e renda ao mobilizar diversos setores da economia. A Organização das Cidades Brasileiras Patrimônio Mundial (OCBPM) destacou, neste ano, que essas celebrações movimentam a cadeia produtiva em cidades com sítios reconhecidos pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), como é o caso de São Luís, gerando grande retorno econômico em setores transversais, principalmente turismo e cultura. Nas cidades onde a festança é realizada, observa-se o envolvimento de uma ampla cadeia produtiva, incluindo hotelaria, transporte, vestuário, moda, serviços de estética, gastronomia, agronegócio, comércio popular, eventos, segurança, logística, entretenimento e artesanato.

FONTE: https://g1.globo.com/ma/maranhao/empreendedorismo/noticia/2026/06/07/sao-joao-cultura-popular-movimenta-economia-e-gera-oportunidades-para-pequenos-empreendedores-no-ma.ghtml


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